segunda-feira, 18 de julho de 2011

O CORPO HOJE


Na ocasião de nosso nascimento recebemos um nome, uma certidão de nascimento e tornamo-nos alguém no mundo dos vivos. No ambiente que nos abriga, desde nosso lar até a sociedade em que aportamos, aprendemos os ensinamentos para nos adaptarmos às regras em vigor. Somos então cobrados no aprendizado e obediência dos seus valores e ética peculiares. Numa cultura determinada iremos crescer em corpo e mente construindo a nossa identidade. Passamos a ser identificados e classificados não apenas pelo nosso nome, número de identidade, CPF ou profissão. Seremos imediatamente reconhecidos pela nossa imagem visual. Nosso corpo é certamente rotulado desta ou de outra forma por quem nos cerca.
Nos dias atuais, marcados pelo predomínio do materialismo, nossa imagem e desempenho medem nossa possibilidade de sucesso. É natural que a preocupação com o corpo seja prioridade. Nossa máquina física necessariamente tem que dar conta de tudo que se exige dela: horas intermináveis de trabalho e nenhuma de lazer, uma forma de vida que nos mantém em contínuo estado de stress, problemas resultantes da má alimentação, poucas horas de sono e muitos outros problemas que, de tantos, tornam-se inumeráveis. O corpo humano é insuficiente para suprir as necessidades do homem de hoje. O corpo que trazemos passa a ser um rascunho daquilo que muitas vezes desejamos: sua forma é deficiente, assim como seu desempenho. Então passamos a construir corpos, sem nos importarmos com a sua fragilidade. Usamos medicamentos para emagrecer, anabolizantes, remédios para dormir, outros para não dormir, energéticos, próteses químicas e muitos outros recursos, numa tentativa de mudar o ritmo e a estética do corpo, nos rendendo às requisições do mundo. Fabricamos uma geração que passa a maior parte do seu dia malhando para conseguir a forma perfeita. O importante é aparecer. O que conta é a imagem. Até mesmo os filhos passam a ser programados geneticamente. Como nos fala David le Breton(*), é a realização do mito do filho perfeito. Programa-se o sexo, as características principais, a data do nascimento. Uma criança com selo de boa qualidade morfogenética e aparência física.
Com a adolescência, muitos jovens entram em crise porque no processo de desenvolvimento físico, o “novo corpo” acaba adquirindo uma forma indesejada. Formas, cabelos, dentes, todos deverão sofrer um processo de reconstrução, por conta de “uma falha genética”. Por causa disso, muitas vezes as emoções em desalinho pedem socorro!!!
Nossas emoções e nosso humor também devem ser programados. Sentir não é mais permitido. Qualquer tristeza se tornou depressão com direito a toneladas de medicamentos, porque a ordem é estar sempre feliz. E o caminho da depressão, da baixa auto-estima serão o provável destino para quem não conseguir atingir suas metas de realização, sempre com a necessidade de se enquadrar nos padrões estéticos e comportamentais da moda e dos costumes sociais em vigor.
Observamos, então, que nunca se cuidou tanto do corpo. Reconstrói-se a pessoa de fora para dentro, como se a mudança de imagem pudesse modificar o que vai pela “alma” de cada um. As pessoas distanciam-se cada vez mais da sua realidade interior.
Cuidamos mal do corpo e ainda não aprendemos a cuidar das nossas emoções, do nosso self. Continuamos mais e mais a castigá-lo pela nossa impossibilidade de compreensão e nossa ignorância.
 Dizem que os olhos são o espelho da alma e nosso corpo mostrará sempre o que trazemos dentro de nós.
 Para termos um corpo saudável e vivermos de forma equilibrada, deveremos trabalhar em prol do nosso crescimento emocional, tanto sob o ponto de vista individual, uanto do relacionamento com o Outro, observando a ética e respeito por nós mesmos e pelos nossos semelhantes. E isso só se dará no momento em que deixarmos de lado as requisições absurdas e intermináveis do mundo atual e nos voltarmos à nossa realidade, conhecendo profundamente a causa das nossas dificuldades, resignificando valores e crenças, vivenciando emoções de forma mais saudável, reconstruindo nosso caminho e nos vinculando conscientemente aos propósitos dignificantes da nossa vida.

LILIAN APPROBATO
Psicóloga Clínica
CRP 06/92901
9972-6520/9288-4793
 
(*) David le Breton é sociólogo e professor da Universidade de Estrasburgo, autor de “Antropologia do Corpo e Modernidade” e “Adeus ao Corpo”



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